E aí zumbí?
Recentemente comecei a trabalhar em uma escola onde os alunos têm acesso aos livros didáticos para estudarem durante o período da escola. Eu, particularmente já nem estava mais acostumado com essa realidade de livro didático. Na escola pública onde terminei o segundo grau (hoje ensino médio) não tinham livros didáticos e nas escolas onde lecionei até hoje nunca havia presenciado tal prática.
Antes de ser fuzilado pelos meus colegas historiadores e pessoas que odeiam os livros didáticos quero dizer que concordo que o livro didático não é a salvação da lavoura e que não podemos fazer a educação exclusivamente em cima do livro didático, mas questiono que é SIM muito bom, os alunos terem acesso a uma fonte de pesquisa e aprendizagem que não seja apenas o quadro… mas… antes que eu me perca…
A questão é que sempre que devolvo os livros para a biblioteca, sempre procuro contar e recontar para ver se todos os livros estão presentes, se não esqueci nenhum e se os alunos não levaram nenhum para casa. E estava conversando com a professora que cuida da biblioteca justamente isso, sobre como o estudo e a pesquisa não está entre as prioridades deles, por isso ninguém tem o costume de levar os livros didáticos para casa.
Então realmente comecei a refletir sobre a questão de até onde ia a falta de interesse dos alunos sobre a educação e a pesquisa e vi que realmente era grande. Alguns, prontamente devem responder: – Tá, mas e você não sabia?
Logo eu vou dizer que sim, mas quero chamar atenção para a gravidade do problema pois a falta de curiosidade pela pesquisa é tão grava que as crianças não se prestam a pesquisar assuntos que seja do interesse dela. Quer um exemplo?
Certo dia estava assistindo um programa de televisão onde era realizado o sonho de um menino que era fanático por aviões e que queria ser piloto. O sonho do menino foi realizado quando o apresentador do programa o levou para visitar um porta-aviões da marinha americana que estava no Rio de Janeiro.
Até então tudo bem. O menino era de origem humilde, brincava com aviõezinhos de papel e tudo mais. Mas a medida que a entrevista ganhava corpo, notei que o menino não sabia direito qual era o funcionamento do porta aviões, não sabia como funcionava o mecanismo que manobrava o avião na asa, e diversos outros itens que não necessariamente todo o ser humano deve saber. O conhecimento do menino era puramente estético, ele achava aviões bonitos, ele achava aviões legais.
Não estou questionando o nível social do filho, ou os pais que não deram importância para a curiosidade do filho ou não tinham dinheiro para presentear o menino com um livro sobre aviões. Mas não podemos esquecer que vivemos em uma sociedade onde o acesso à informação é simples. E é simples mesmo!
O menino poderia desde procurar um livro na biblioteca sobre aviação ou máquinas em geral, ou procurar aprender com os filmes de aviadores, ou mesmo a internet. Sim… a internet! Pois por mais que 70% da população brasileira não tenham acesso à internet, os jovens em especial sabem o que é Orkut, sabem onde encontrar e muitos têm conta no Orkut por mais que não a utilizem.
A falta de curiosidade científica dos jovens é algo alarmante. Não procuram compreender o funcionamento de máquinas, fenômenos ou mesmo objetos do seu dia a dia, como é o caso do próprio CD ou rádio onde ouvem música. Temos que parar com essa mania de olhar os alunos oriundos de famílias de baixa renda como coitadinhos e excluídos inclusive do mundo do saber. Todos têm igual capacidade de compreender, por mais que não tenham poder aquisitivo para garantir o acesso a outras fontes de pesquisa. Não peço alunos prodígios, mas quando a criança diz que gosta de algo, gostaria de compreender que pelo menos aquilo que é do interesse dela, ele investe para saber mais. Garanto que a escalação do time de futebol preferido a maioria sabe…
Jurássico 2012 (ano III)