Dia da Consciência Negra

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Nesse dia 20 de  novembro será comemorado o Dia da Consciência Negra. Uma data para celebrar sobre a participação da cultura negra que vem desde o tempo dos escravos trazidos da África e que hoje fazem parte do universo que nós conhecemos como Brasil. Em fim, é uma data para reflexão, e para a inserção do negro na sociedade brasileira.

Bom, até então muito bonito, mas vamos decompor essa questão para analisar alguns pontos.

O primeiro ponto é sobre a data, que foi escolhida por coincidir com a morte de Zumbi dos Palmares, ícone da resistência escrava no Brasil Colonial. Antigamente, o maior grupo étnico do Brasil, só tinha o dia 13 de maio para celebrar que é o dia da Abolição da Escravatura em solo brasileiro. Um dia onde celebramos a suposta bondade da princesa Isabel. Levantei essa questão pois acho completamente sem noção você criar um dia para celebrar algo que já está fundido com a nossa identidade cultural. Esse dia é realmente necessário?

Ok, então para o leitor que chegou nesse ponto deve-se perguntar:  – Então o professor é contra o dia da consciência negra? A resposta é claro que não. Esse dia é sim um grande avanço par aos grupos que lutaram para conseguir esse espaço importante para a reflexão. É sim uma vitória em um país que fecha os olhos para a questão da contribuição negra como é o caso do Brasil. Ainda lembro das palavras do Carrasco , um colega que trabalhou comigo na UOL Host que certa vez comentou comigo que “preferia o racismo americano ao racismo brasileiro, pois lá, os outros olham na tua cara e dizem que não gostam de ti pois tu é negro, ao racismo brasileiro que nega o racismo somente quando está na tua frente”.

Então como conscientizar o brasileiro sobre esse comportamento errado que reproduzimos? Para essa resposta, tomo as palavras da minha célebre supervisora da noite, a Prof. Luciene para explicar a questão é que o problema em gerar um dia para celebrar  o dia, é que isso por si só é um problema, pois estamos pensando errado por consciência não se desperta e sim se constrói dia a dia. Desta forma apenas trabalhamos o dia e consideramos a aula dada e a missão cumprida. A saída para esse dilema é você criar um currículo diferente na escola onde você trabalha. Aquela velha história de união dos saberes, que nada mais é do que fazer uma integração de todas as áreas dos saberes para difundir essa contribuição de maneira que ela seja uma coisa normal e não algo para se celebrar em um dia. E isso que eu escrevo aqui não estou sozinho nessa caminhada, vários teóricos da educação tentam achar a saída para esse modelo de ensino que possuímos hoje que está fadado ao fracasso.  Essas linhas que escrevo hoje são ao mesmo tempo um desabafo como professore e um apelo aos profissionais e simpatizantes da história sobre como podemos identificar a marca racista na construção da cidadania brasileira.

Eu, no modelo de aula que eu uso hoje (grande experiência que eu tenho, 1 ano de professor), sempre trabalhei a questão da contribuição da cultura negra atrelado ao conteúdo de Brasil. Isso não é errado, mas não é o suficiente. Na verdade eu preciso expandir isso, pois é algo que não veio apenas ao Brasil e sim algo construído lá fora e que as elites aceitaram para reproduzir aqui pois era financeiramente rentável. Como podemos fazer isso? O primeiro passo é parar de reproduzir conceitos.

E aqui chego ao segundo ponto que queria discutir que é a reprodução de conceitos. A própria discussão sobre “Raça” é algo ultrapassado e discriminatório. Pois ao tratar em “raça” você está comparando fatores físicos para justificar alguém como mais ou menos apto em relação a outro. Isso é uma coisa que muitos professores trazem na sua bagagem cultural e trabalham em sala de aula sem perceber. Podemos não carregar em nosso discurso tons racistas ou preconceituosos, mas  é  uma questão de reprodução sim gente, algo que está tão fundido ao nosso conceito de mundo que nascemos aprendendo a copiar o que nossos pais copiaram. Querem ver alguns exemplos que nunca paramos para discutir?

Por exemplo, a questão da abolição da escravidão. O Brasil  foi o último país da América a abolir a escravidão. E somente aboliu por pressão dos economistas da época pois eles colocaram na ponta do lápis os gastos que o senhor de escravos tinha com o escravo e por A+B provaram que era mais barato você dar X dinheiros ao cidadão do que dar comida, cama, moradia e demais gastos (que não eram muitos) com o escravo. Simples assim, mas isso não foi uma coisa que surgiu da noite para o dia, muito esforço se fez para que as novas elites cafeicultoras que subiram ao poder derrubassem essa mentalidade colonial de casa grande e senzala, aliada à uma produção açucareira. Era tão fechada a cabeça do senhor de engenho na época e esse era tão dependente da mão de obra escrava que se ele tinha um dinheiro sobrando, e resolvia investir no negócio de cana de açúcar dele (detalhe, nem todos tinham essa cabeça empreendedora, muitos só guardavam ou gastavam o dinheiro), ele ao invés de comprar uma máquina para moer melhor a cana, ou qualquer outra máquina que agilizasse o trabalho do escravo, ele gastava seu dinheiro comprando mais 10 escravos que era o preço da máquina.

Quer outro motivo pelo qual não aceito a forma que foi abolida a escravidão? As leis de abolição gradual da escravatura. Tiveram que criar diversas leis que abolissem a escravidão aos poucos. Pois se abolissem de uma vez, o Brasil parava. Por quê parava? Mas é óbvio, de norte a sul, todos usavam escravos. O escravo era as mãos e os pés da economia nacional. Fazer isso era tirar o ganha pão de todas as elites brasileiras. Fora as leis absurdas como a dos sexagenários que todo o escravo maior de 60 anos deveria ser liberto. ABSURDO! O que iria fazer da vida um homem maior de 60 anos que não sabe ler nem escrever, sem casa própria e que a vida inteira trabalhou como escravo?

Quer mais? O que aconteceu depois da abolição? Fizeram algum trabalho para inserir aquele escravo no mercado de trabalho? Se sim me conte pois não conheço. O que fizeram foi buscar mão de obra no exterior. Aí que entra todos os imigrantes italianos, alemães, poloneses e por aí vai no Brasil. Nada contra os imigrantes, mas nosso governo os contratou pois eles vinham de um país mais “evoluído” do que o nosso, com mais saberes e técnicas, ou seja, pronto para o trabalho. Além disso eles eram acostumados com o sistema de mão de obra assalariada. E por fim, essa era uma ótima tentativa de “branquear” a “raça” brasileira. Sim, foi bem nesses termos que a coisa andou. Os governos não se preocuparam naquele momento que era um momento ímpar na história do Brasil para inserir o ex-escravo na sociedade.

E por aí vai meu povo, a história da luta da defesa dos direitos afrodescendentes é coisa muito antiga mas suas conquistas na legislação são muito recentes. Por exemplo na lei de 1951, pleno período do Estado Novo no Brasil, a lei Afonso Arinos conseguiu apenas exigir em lei que nenhum estabelecimento comercial ou de ensino, de qualquer natureza, proibísse de hospedar, servir, atender ou receber clientes, comprador ou não, em função do preconceito de raça ou de cor. Parece pouco, mas na mentalidade da época era muito.  Vixi, já tivemos inclusive muitos atos oficiais que sufocaram a expressão dos grupos que defendem a cultura negra, como foi o caso do Sr. marechal Deodoro da Fonseca, que em 1980 criou o Decreto Lei 487 dizia que “A partir de 11 de Outubro de 1890 todo capoeira pego em flagrante seria desterrado para a Ilha de Fernando de Noronha por um período de dois a seis meses de prisão”.

Então, ao amigo que leu esse texto até aqui, deixo como mensagem de despedida que SIM. Até o dia que esqueçamos essa herança preconceituosa que carregamos desde nossos bisavós, que SIM, se faz necessário criar um dia da consciência negra.

http://www.palmares.gov.br/
http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/seppir/

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